Liamismo (parte I)

Todos os dias, em solas gastas por ventos de tormento, o humano caminha no mesmo espaço duas vezes. É a ida e a volta. Na ida, leva consigo uma ideia, fabricada, originada, aclamada em sua mente. Na volta, traz consigo o jornal, uma qualquer outra ideia ainda sem destino e seis pães. Nos cem metros percorridos, a janela do local onde abafa o realizar de suas obras, mantém-se vulgarmente disponível, esperando uma manobra vinda de uma tesoura inconsciente. Nesse mesmo espaço, um liame que se solta do casaco do humano segue-o como qual patinho feio. A trajectória não é visível por nada nem ninguém, nada nem ninguém o observa, talvez seja essa a razão. As migalhas dos pães ainda coladas a eles, rebolam no mesmo saco, constituindo elas um outro liame que firma essa mesma ideia: a de segurança. O não observar está em liberdade constante, não se prende por favores ou ideais, por questões ou apostas, nem tão pouco por rodas e aparelhagens pretas com olhos esguios. Mas os liames, estando constantemente presentes, abraçam a hipótese, a probabilidade de a liberdade se equacionar em qualquer altura. Nesse momento, uma solução, outra, tem de alcançar. A relatividade realça o oportunismo, ainda antes de o não observar ser ultrapassado pelo humano.
Pousa os seis pães e o jornal numa mesa manca, ferida na guerra de uma descoberta maliciosa e apimentada por imoralidades sem lógica, enquanto a ideia que vinha a ser desenvolvida na volta se evaporava para os perdidos e achados da casa do humano. O roçar do saco com o pão, juntamente como jornal enrolado na base da mesa laranja, despoletou dois acontecimentos em simultâneo: o soltar das migalhas corrompendo assim o liame que as ligava assim como o descontentamento do liame que percorreu os cem metros. O humano sonhava a imatura criação de uma palavra e já o liame conhecia a sua limitação.

Entristecido e humilhado pelos outros, não se deixa quebrar, mantém o que pode alcançar e no dia seguinte, no mesmo percurso, o humano, repetindo toda a mesma situação percorre os mesmos cem metros. Será o mesmo que dizer qual a limitação do liame. A diferença mostra-se envergando um aliado como se de uma arma estrangeira se tratasse. O roçar aconteceu mas com cinco pães. (...)

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