A Mentira de Chaviera - Texto I

De gorro em punho, chocolates em defesa e tormentos avassaladores, críticos espaços de melancolias invadiram a imaginação de Chaviera. Na hora do choro, cristalinas seduções irradiavam com alegria, sem pudor, a arte colorida de um cinzento. Ela não se importava com a invasão. Finalizava a sua rotina e tomava o chá, quente, a escaldar, sem se importar minimamente com as escolhas que lhe faziam. Não se sentia incomodada com absolutamente nada e isso, para cúmulo dos cúmulos, até a arredondava ainda mais. Um sorriso matreiro espreitava.
De queixo pousado e cheiro inesquecível enganava os transeuntes de seu instinto. Adengava pormenores que seriam inevitavelmente sujos e rugosos. Calcava uma tentativa, escolhida a pé, torneava salgados em doces, relançava ideias passadas no vindouro de seu leito e quando chegava aquela hora, chorava. Marcava a vermelho, com exactidão de profundezas maltratadas, o momento. Mais vermelho ficava com a mistura alaranjada da sopa que no abismo distribuíam. Mimos aparecem a qualquer hora. Relaxam no seu enorme corpo, como que desenhados pela miopia das castanhas que tendem e insistem a rabiscar qualquer tonalidade que desafie o arco-íris da imortalidade. Não, não era! Aquela de que se padece e não a que se sonha.
Não existe qualquer pressa em deslocar emoções. Estão presas em órgãos que estão sós. Sem trilhos, sem cascas protectoras, sem cálculos de rajadas presunçosas. Não há liames, finalmente… o que existe? A vontade. Apregoada continuamente, na certeza irrisória de uma unha mal formada mas com experiência suficiente para levantar obstáculos… que não existem. Chaviera sabe isso, melhor que ninguém… É dessa forma que o sorriso matreiro se alimenta, do conhecimento oportuno e experimental, que relaxa em suas ondulantes faces de seda que pernoitam na mentalidade automática e pontual. Não há forma de lidar com a semelhança entre pontos que a preenchem, mas há forma de se juntar a esses mesmos pontos questões ansiosas por se desmitificarem.
O queixo rugoso treme, afina-se calmamente. Seduz a melancolia. Preenche páginas em branco. Falta a compromissos ainda mais rugosos. E… sorri, de alma depenada, de espírito quebrado. Soma total: subtracção de rugas. O tempo a afrouxa, calça luvas de respiração, pendura seu esqueleto no cabide da vaidade e espeta calculismo nas lágrimas de Chaviera. O ponto fraco, a hora da vulnerabilidade é um peso que um redondo milagre não suporta por muitas borboletas que carregue. Mortas, ou pelo menos moribundas, porque por cada representação altiva uma pestana cai… no abismo. E nem odores nem vontades, nem luvas nem sopas arredondam cavernas inquebráveis. Talvez o piano manco, mas esse há muito que não cria, que não reluz… esse, é uma fita, é um murmúrio, um segredo, é uma mentira sem lógica e irreal. É uma melodia nua, despida… inexistente, porque não?
Por vezes, Chaviera, escuta o som do odor que ela própria persegue. Inconscientemente ou não, só ela pode escolher o tema da perseguição a realizar nas estupefactas linhas da sedução que apelam a seu famoso choro. Nesse odor, cabelos lisos de rebeldia contrastam com a insegurança de seu olhar, numa batalha crua, causando milhares e milhares de mortos, milhares e milhares de moribundos, desfeitos pela simples hipótese do auge acontecer.
Numa fotografia tipo passe, rasgada e gasta pelas lágrimas casuais de algo ou alguém, perdura a insignificância do mesmo que se mostra. Mas perdura… independentemente do que seja. Basta isso para ser mais do que qualquer outro objecto ou ideia que naturalmente se prontificaram a conjugar-se com a batalha, com Chaviera.

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