A Mentira de Chaviera - Texto II Final (Rugas para óleo)

Em seu quarto, Chaviera o divide em dois. De um lado, uma cama vazia, sem recordações, despida, que existe por existir. Ao lado da mesma, um armário que se estende a uma outra galáxia, completamente desconhecida para qualquer ser vivo, mesmo para ela, onde num só dia, um metro só percorre. Entre a cama e o armário, uma cómoda azulada, vidrada em melancolia, rasurada pelas unhas longas e espetadas de Chaviera, descansa. Na cómoda pousam óculos, chávenas, livros e tristezas umbilicais. Na verdade, nada sobressai neste lado do quarto, nem mesmo a névoa que assombra o enredo de seus intervenientes materiais mais vistosos.
Do outro lado do quarto, sim, o lado que abrange toda a série de fantasias e questões éticas encontra-se uma outra cama. Esta, plena de ideias, marcas e cicatrizes, ponteiros embriagados e espuma brilhante, é o centro de uma metade. A seu lado, uma varanda, com vista para um horizonte imperfeito e futuro, mas por um canudo de jornal. Aos pés da cama, uma cadeira se encontra, onde Chaviera, após se despir, coloca sua máscara quase que transparente. Carrega máscaras e sorrisos, imperfeições que assim se tornam perfeitas… E em toda esta electrizante conjugação que só a pele pode autenticar, a prova de quem Chaviera é mostra-se sem receio. A porta das metades fecha-se e as paredes continuam brancas.
Num alongamento apressado pelos bens arrumados pacientemente, descobre-se a sensatez e a palidez dos gestos outrora refrescantes. Mal dizer é preponderante para alienações conjuntas, mas um qualquer fósforo admite e prova esse facto. Tendo isto em conta, acender o disco do fogão quieto enquanto se cola pele quente é apenas uma formalidade no protocolo da sedução que nunca se esqueceu. Não existem lembranças que não perdurem em lágrimas repetidas. É o paradoxo da pseudo-imortalidade de Chaviera.
Na sala de jantar um prato de destaca, aquele reluzente, com pintas acastanhadas e sabores perdidos. Está pousado na mesa ao fundo relaxando entre uma maçã e um palavrão. Quebrado pela omnipotência do chá, não se senta alguém à distância de lhe tocar. É perigoso. Mas tentador. É um dos objectivos. Criar tentações. Tem a lição bem estudada, não faltou a uma aula sequer, não se distraiu por um minuto que fosse. Assim, sabe os pormenores com que tem de lidar, sabe os palavrões que tem de recusar e aturar. Só não entende o espaço em seu corpo. Não o define porque não pode, não pode porque não lhe ensinaram tal, não tem ponto A nem ponto B nem um outro qualquer ponto que se possa atravessar. Daí a luz e reflexos perderem-se novamente nas lágrimas de Chaviera.
Percebe-se, pouco a pouco, que o mérito é relativo nesta história e o demérito quase, quase Rei. Para o ser, falta o odor, o aroma infernal do não-conseguido, príncipe comum no historial que alberga Chaviera. Comum e constante, mas nem sempre presente, Um pontapé com o pé esquerdo costuma afastá-lo. A sala de jantar não gosta destes atrevimentos, violência descabida e que co-habita com a paz emprestada pela angelical obra de um qualquer Deus, portanto, como medida extrema e necessária, instalou-se com felicidade estampada, sete ponteiros adormecidos nas janelas e ainda um outro na mesma mesa… ao fundo. Sentinelas atentas mas sem forças. É o suficiente para interligar a varanda do calculismo que funciona continuamente na tentativa de albergar, não uma mentira, mas uma verdade, pelo menos…
Chaviera não conhece os seus cantos. Não vive neles nem por eles. Não os respeita nem desrespeita, existe apenas uma indiferença quase carnal, mas com classe. Entra e sai, com dificuldade. Quando sai, não quer entrar, quando entra quer sair. Expulsa remédios e ajudas de tudo e de todos mas apressa a desculpar-se, a ela própria. Viver com medo causa mal-estar no derrame de suas lágrimas. E isso é bem mais importante que sua vida ou morte. Disso depende toda uma mentira, a única que é capaz de as armadilhar.
Solta os guarda-chuvas na rua, molhados, friorentos e desgarrados de oportunidades solarengas, sacode lençóis de um antigamente e deita-se nua e crua na entrada de uma esquizofrenia saudável. Não sem antes amarrar os cabelos longos que a cobrem, ritual descabido para as aranhas que a observam, mas ritual necessariamente absoluto para a tonalidade de sua imperfeição. Varre as cascas, limpa o nariz com séculos passados, rompe uma qualquer tradição e de rompante, assinala o ponto de partida para a sua aguardada razão de viver. Estão cinco graus negativos e chove como nunca choveu. A positividade relembra a fantasia cerebral do mosquito que atravessou um oceano e jamais se recordou. Não basta passar para afirmar como história. Chaviera sabe disso. É a sua sombra.
A imagem de Chaviera não perdurará nos tempos vindouros. Não poderia ser de outra forma. É algo que acontece naturalmente, sem azo a filosofias que questionam as razões para tal. A imagem de Chaviera, será uma reciclagem natural, sem eufemismos ou ideias vincadas, sem monstros ou pequenos pedaços de céu e nuvens coloridas. A redonda figura será alarmada perante os que observam, a espada à cinta funcionará como um raio-X autorizado pelas mais redondas formas e as rugas no queixo estenderão delicadezas de novas figuras. Para entender o inicio Chaviera sabe melhor que ninguém que é necessário entender primeiro o fim. E não usurpando realidades, torna-se ainda mais realista no delinear de suas conclusões e afins. É a subtileza da mentira. Mas falemos baixo, muito baixo, a redonda forma formam redondas utopias. E para quê mais?
Vinte para as oito. Chaviera alimenta-se. Cenouras azuis, cruas e recheadas, verduras lamacentas, carnes entrosadas com destinos, carroças de melancólicos tremoços regados com a cevada estrelar. Como sobremesa, a azeitona mal vestida, o caroço ondulado na pele de uma animal esfomeado e morto e um toque, um gosto de ansiedade. Seria a cereja do Rei ou a tiara da princesa. Assim como poderia ser o fundo do poço da vila de Chaviera. A preocupação com a sua dieta encontrava-se exactamente aí.
Chaviera era redonda, tinha músculo no pé esquerdo e rugas no queixo. Chaviera regozijava com a extensão de seu paladar. Sabia perfeitamente que pouco lhe sabia. Quando o paradoxo maior chega, a redonda Chaviera sabe que são um quarto para as oito.

1 comentário:

  1. Enternecedor... Mágico... Fico encantada sempre que leio A Mentira de Chaviera... é a tua voz que ouço...
    beijos
    Patrícia

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