Rigor Primário de um Plano

Na época das entranhas normais e dos ossos bem-falantes, um respiro, no seu mais alto esplendor calculado, desenhou a tragédia de uma esquisita entrada. Ao pormenor, de soslaio e de silêncio em pestana, colocou ripas de outrora e cimento de vindouros. Semeou escuridão e nutriu paixão pela luz. Esverdeou milhares de suspiros, cortou horizontes em cadáver, transformou o azul naquele azul e o vermelho naquele vermelho.

As semelhanças, essas, enfiou-as em jarras quebradas pelo vento ciclónico dos estonteantes espaços ainda por preencher, filando-as de seguida num tecto solúvel em suor de mosquito engravatado, um tal que, adiante, seria o portador, na melhor das expressões, da mestria final do respiro. Um tal que, convencido pela sua própria existência carnal aliado à escorregadia gravata que sempre usava, permaneceu na ilusão que sua importância era regra e condição absoluta para que o que transportava transpirasse veracidade.

Proveniente de plenos pulmões e de uma aguda profecia sem autor, o respiro, de carvão e pavão em bico, descalço no chão em pão duro e ressequido, aperfeiçoa a condição de sua existência. O elaborar disponível ao mundo seria demasiado fácil para a expiração calculada ao segundo e sem termos negativos que pudessem causar cócegas autênticas e bailes de gerações em torno de cascas descascadas aquando da outra parte, a inspiração. Esta é o som, é a relíquia do pêssego sumarento, é, sem abstracto ou mesquinhas unhas saturadas, a realidade de calças e camisa em vinco perfeito… que em inúmeras dobras se escondem na gaveta do pavão.

Papel, sujo de conformidades e regras alternadas por esquiços endiabrados choca com a paisagem que por detrás da caixa humana se esconde. A faísca alucina o olho à mercê dos que pressentem e quebra a mão dos que soltam uma acção. A luz criada sustém almofadas de momentos já imaginados e, no suspiro do toque, no toque suspirado as linhas abraçam a tinta e perguntam o porquê. A resposta, e de rompante, marca território ainda antes da pontuação, e no seu dever atira: “Porque sim.”.

A função do toque suspirado causa uma indignação tal na boca da caixa humana que protestos correram veias e tendões da fita amarela, como que demonstrando a procura de uma meta que parecia nem tão pouco existir. Gritos em torno de pêlo amordaçado fritaram cérebros e argolas de processos contínuos que se vendem a qualquer pedaço de calafrio material. Milenar, claro está, mas um novo plano não se cinge a um novo novo.

A glória do provável êxito e da conquista dança isolada, nua, crua e sem espinha que possa porventura posar no palco da fria e entretida decepção. Poucos sabem, muitos tentam e alguns imaginam. O novo pertence a algum. O pêlo, quando eriçado, pertence a muitos e o respiro que actua quando perna lhe chama é Rei presente nos poucos.

No patamar mais alto, após subida, ao som do famoso piano manco que arrota colcheias de dor e prazer, a definição do discurso ainda não preenche verso de existência nem tinta de odor. Não lembra terras por conquistar nem seduções produzidas em materiais que relançam sincronias entre livros de arte sem arte. Não semeia cores de tornozelos em chamas ou pulsos com cortes de mares entre desenhos da mulher imperfeita.


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