ERRO FINAL: TRANSCRIÇÃO EXACTA PONTUADA E CURADA DE IMUNDO


Assim começo, com lassidão de arame e flamingo de pata calma, em rima de Bocage e palhaço em gala trajado, a descrever-te o que irás ler um segundo antes da tua já espera morte. Um segundo que será próximo de uma eternidade para quem estarás a olhar fixamente com o intuito de te tornares naquilo que desejavas assim que te vi na jangada de cal proveniente de Martírio, um mundo que nunca conheci. Não guardo ressentimentos por nunca mo dares a conhecer nem tão pouco por nunca o mencionares. Fui teu disfarce e tua orelha, tua máscara e tua cama, fui caminho e fui atalho mas neste momento serei a foice. Ceifarei teu sonho.
Traição lhe poderão chamar, mas na cinza tic tac do organismo da razão aliada à vertente pum pum da molecular invasão, saberás apelidar verdadeira e correctamente o que te faço. Eu sei, tua sombra sem sombra fez com que a minha fomente esta ideia. Num passo destruíste e num outro festejaste com o que destruíste. Pulaste por entre navios conquistados, já com a tua bandeira de pirata dos erros saqueados hasteada e limpaste o nariz à tua ambição, num gesto sublime, só comparável à funcionalidade das tuas inseparáveis armadilhas. Regozijaste com o saque e entupiste réguas de esquizofrenias e livros de pseudo-mártires com o meu chapéu, aquele que me ofereceste, apenas e só para me ofuscar na entrega do “Armadilha do Ano”. Escreveste sentinelas de causas e nuvens de arrufos num só toque suspirado, enquanto barateaste a pele natural que adornava teu esqueleto metálico e já automático. Nunca encontrei um botão. Criaste árvores e ligaste misturas de possíveis enredos funcionais à tua vivência enquanto fumaste a transpiração dos que, hipnoticamente, te veneraram. Açambarcaste o podre da maçã e chamaste-lhe de pêra.
Não me julgues pela aliança a Laím, não recues no teu ideal. Não ignores a solidão de teus frutos nem apunhales a tua já fraca percepção inconsciente. Deixa-te levar como eu me deixei levar. Figurei em tua história e fui protagonista debaixo do teu mar possesso. Na montra da invisibilidade permaneci, sereno, com escrúpulos de matar ódios e com lápis de desenhar paciência. E foi nesta parola e idiota estrela que me deitei a construir, pedra a pedra, caco a caco, o Erro que te ensinaria, apesar da contradição, a viver. O Ano da Morte de Errata, a História do Cerco a Errata ou até mesmo o Ensaio sobre Errata eram capas, não para o teu sonho mas sim para o meu. Cozinhei entrelinhas as manjedouras do odor que causaria repulsa entre mentiras. Na tormenta, sem razão, espalhei a sensação do riso e da carteira em couro artificial. A borracha, instrumento louvável na perseguição inter-planetária, desapareceu, num bolso ainda mais louco que a névoa de carregar ao colo. Adormecido, o mesmo colo, e quente como lava num jarrão de museu, apaziguou teias de pegadas movidas a ideias concebidas a dedos-luz. Conduzi exércitos de óculos escuros e até partidos por entre os atalhos que defini para não te perder de vista, para não me perder de vista. Os guerreiros que o compunham, errantes principiantes, transformaram-se em brincos, os mesmos que te oferecia, os mesmos que usavas nas brilhantes e vistosas armadilhas, que assim eram depois de funcionarem. Rematei para ponto e saiu vírgula. Como poderias tu lidar com o que não conheces quando acima de tudo estava o que querias? Falhei, é certo. A ignição que me propuseste, a teia de propósitos unidos e absorvidos por um só ideal, o teu, resultou, até certo ponto. O tal ponto que saiu vírgula. Hoje, agora, enquanto te admiras e desfaleces, torna-se ponto de exclamação.
Poderoso aliado, Laím. O que me pediu em troca? Nada! Pediria tudo e seria muito mais fácil. Em sua caverna, na intermitente agonia do consciente, propôs-me o que tu, Errata, nunca sequer consideraste, unir-nos. Desviaste preto do quotidiano e mexeste óleo em vez de ar, pernoitaste na impureza e acordaste na sujidade. Lambeste causas de bandeira duvidosa e acariciaste a mesma dúvida enquanto entornavas ouro sobre o teu sonho. Sublinhaste podres e manteiga azul sem nunca te lembrares da cenoura, riscaste-me de tua lida e absorveste a essência do egoísmo. Na tua caça te fixaste e em teu queixo rogaste pragas em virtude semeada só para que o teu nome fosse dito de forma sublime quando espirrado pelo pavio da questão moral e receptiva a outros… a mim. Não doseaste o entusiasmo, nem uma migalha de migalha soltaste em nódoa para que sentisse uma destreza mínima em conforto pessoal e recuaste quando te pedi o cruzamento da pestana caída. Oleaste a esperança, a minha esperança, tal como fizeste à corda ou martelo, à arma ou à água, à pedra ou à caneta…
Irrisória sensação me transmitiu. Um silencioso odor de marfim solitário em carne crua, em carne de mosquito abandonado em cativeiro soturno sem movimento prioritário… um exemplo desconexo. Que obsessão a tua! Falharás deitada em sua cama, coberta com a tirania que tu própria ensinaste a teus inimigos e com a tua mágica armadilha penetrada na automática reacção de um ser que desconheces. O teu sorriso será a tua surpresa e o teu túmulo um santuário à ironia de teu sonho, visível a dois dedos-luz. Eu, Imundo, de alma dada e saído do bolso de malha tresloucada, lá estarei como assim sempre serei, o teu Erro.

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