"A Devota Consciência de uma Pele Maldita II "

Lá na fonte, no cerne da história enriquecida por línguas em tinta morna, lavaste a lágrima do meu odor. O esfregão de instrumento afiado tornou-se na relatividade de tua inocência na questão de um gesto tratado em liga de malmequer. O esfregão com que saudade lançaste arrepiou-se ma medida de tua palma.
E na imensidão da pele que não quer ser, regozijaste uma vitória nua sob os caracóis da queda tardia de um pôr do sol com lua vestida. Viva estás, quando a lágrima perdura numa lavagem eterna. Viva estarás, como tortura e maldição. Por isso morres, por isso morrerás.

Disseste sim, quando queriam um não e até disseste não quando queriam um sim.
A contradição é a tua rota de destino e o teu ponto de partida. A distância é a tua escova e o que calças é o que vestes. Dessa forma, dispo-me exigindo nova pele. Consciente estás mas só durante a viagem. No fim ou num qualquer fim, por entre abre e fecha de frio constante, por entre gelo ardido ou fogueira distante dirás sim quando um sim alguém quiser...

Será como mastigar uma inconsciente e trágica planície de maravilhas que não existem, será como queimar um cheiro para um outro obter, será como tomar a cevada da triste incerteza.

Mas... mas não me importa... nem a consciência devota ou o cerne da história que não contas, não me importa a vitória que não vestes ou o sim que atiras num qualquer reino. E de consciência arregalada na sedução que limas enquanto percorres a porra da tinta que teima em dispersar na pele maldita, não me importa, não me importa...

"A Devota Consciência de uma Pele Maldita"

Escutei a silenciosa e honrosa harmonia das palavras que me dirigiste. Mão com mão, dedo a dedo e pele em comunhão numa reacção responsável pela resposta despida e crua. Escutei a tinta que saltou em azul de torno frio e claustros abraçados, como habitual na relação próxima de gerações perdidas. Naturalmente te silenciei na ruptura estrelar que povoou o teu universo. Negro, sem luz e sem cor, apenas linhas entrelaçadas vindas da palma de tua mão.
Destinos teatrais seria a expressão correcta para o que inseriste em minha calma. Nesse fingimento vibrou o calcanhar de teu mundo.
Na área que cobriste, tua sombra se alimentou de meu respiro, num grotesco almoço de vivacidade alterada e de meias vermelhas. Descalçaste e calçaste, numa repetição que se tornou em nova resposta, e assim consecutivamente.
Palmas para ti, aplaudo-te de pé. Bis!!! Bis!!!

" Hoje levei uma formiga para o trabalho, seu nome é Terceiro."

Entre a lata do açúcar e o álcool que não dançava passeaste descontraída observando os grãos de futura maldade na viagem já planeada. Persistente e curiosa galgaste o terreno doce, construído e desgastado pela sombra da mesma. No esfregão de riscos calculados descansaste e no amarelo que lava loiças pensaste o verde que esperançava a regalia da vida, seu mais alto ponto de expectativa real.
A claridade que penetrava o chão gasto e pegajoso clarificava um objectivo mesmo antes do calor do fogão aquecer o leite derramado. Em nata se tornava, apenas e só para cobrir suavemente as costas que salvariam milhares. No tic tac do relógio aborrecido co-existia a pergunta da sobrevivência e no ponteiro maleável pelo sono humano pregava a resposta em tom raso e incolor. A lata de açúcar casa com a claridade.
A formiga desprende a visão e num calcanhar de apóstolo segue uma tratada e inexperiente hora de destino. Um ruído de alarme é suficiente para milhares se acautelarem enquanto o trabalho definido espera, sem ponto e sem vírgula.
Hoje levei uma formiga para o trabalho, seu nome é Terceiro.

"Profícua Construção"

"Profícua Construção"

óleo s/tela 92cmx65cm



"A Teoria de Um Arame"

Biblioteca Municipal de Santo Tirso

5 a 28 Novembro

Teoria de Um Arame

"No profícuo arame da realidade, irrita-se a noção plena de um estado febril com lantejoulas azuis. Penetra-se na imensidão do esqueleto sem rim e afirma-se a questão sem valia. E na mordida do moribundo à casca solta repete-se o processo. Senso comum para a Teoria.Polivalência mortal na irrisória aspa da cortina verdejante e de raiz crocante enaltece a tal noção enquanto amadurece a alínea do odor mascarado. O Aquecimento, protagonista despercebido, afigura a cor da mordida e na repetição se molda, com meias de lã, protegidas pela realidade farpada e incolor. Os contrastes alimentam o processo e pegadas se formam na sirene que deambula na questão, ainda sem valia. E tudo se repete… no arame. Naquele arame que bamba, que treme pelo temor da sedução que vicia, naquele arame que reluz a sensação irónica do passado que se tornará futuro. Unidas as cores que criam a rebelião no presente, o Aquecimento conjuga a Teoria."

surrealismo curado

































"Surrealismo Curado"

Exposição "Surrealismo Curado" de José A. Nunes

Casa da Cultura de Beja

7 a 28 de Outubro 2011


“Entre o esqueleto e a guelra, entre o relaxamento e a sombra do mesmo, entre o cruel espaço fundido e o saturado tempo em meias de lã, dança o respiro. Respiro de gola maldita, com a mania da expiração em arame cortado por um adeus. Respiro de nódoa em punho, com a subtileza do calafrio momentâneo num horizonte despido de tinta. Respiro de fósforo queimado, com cinza incandescente em bolso aperaltado.

E assim se desloca e assim se esperneia, numa invisível teia de pudor maltratado, e assim se questiona e assim se mostra, numa verdade assassina na câmara da solidão sadia. Aliado do odor sem dono e indisposto com a lua em picos exaltados, salienta a luta e inventa as armas. Cria um ponto e trai a vírgula, é o seu principio em tom dourado e em bandeira vertical sem rabo.”